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No Sudão, o acesso a algumas áreas remotas só pode ser feito em burros ou camelos

14/10/2020
Para chegar a Umo, por exemplo, são necessárias quatro horas de viagem por uma região montanhosa
No Sudão, o acesso a algumas áreas remotas só pode ser feito em burros ou camelos

Foto: MSF

Nasteh Shukri Mahamud é enfermeiro e líder da equipe médica em Rokero, Darfur Central, no Sudão, uma região afetada por anos de conflitos armados. Confira abaixo o seu relato de como é difícil levar cuidados de saúde a quem mais precisa em áreas remotas, por onde o transporte quase sempre é feito em burros e camelos:

“No início de setembro, comecei a trabalhar como líder da equipe médica de MSF em Rokero, uma área com cerca de 200 mil pessoas. Nosso projeto oferece serviços médicos em duas áreas, Rokero e Umo, na região montanhosa do estado de Darfur chamada Jebel Marra.

Darfur sofreu durante mais de uma década com conflitos. Embora muita coisa tenha mudado após a instalação do novo governo de transição, a situação geral de segurança continua frágil e os confrontos violentos continuam.

Em fevereiro, MSF começou a fornecer serviços médicos em um centro de saúde estatal, chamado de "hospital rural", em Rokero. Gerenciamos o setor de internação, o pronto-socorro, a maternidade, as enfermarias de parto e a sala de observação, onde os pacientes ficam sob vigilância por 24 horas até que tenham alta com segurança ou sejam internados.

Também administramos um centro de alimentação terapêutica para crianças desnutridas, que sofrem de complicações como diarreia ou infecção respiratória. Pacientes com lesões complicadas são levados a um hospital maior na cidade de Al-Fasher, capital de Darfur do Norte, a seis horas de carro.

Umo é uma área remota situada entre duas montanhas na cordilheira Jebel Marra. É controlada por um grupo rebelde armado que continua a lutar contra as forças do governo e outros grupos armados da região pelo poder e controle dos recursos. Cerca de 50 mil pessoas vivem lá em dezenas de vilarejos espalhados pelo vasto terreno rochoso. A área está sem assistência externa desde 2008. O único meio de transporte dentro e fora de Umo é por burro ou camelo. Não há estradas e não há acesso para carros ou ônibus. É uma viagem de quatro horas de Rokero a Umo. É uma jornada muito cansativa, difícil e perigosa ao longo de um terreno rochoso e escorregadio.

A situação em Rokero e Umo permanece volátil. Muitas famílias que foram deslocadas por conflitos anteriores encontraram refúgio na cidade de Rokero e ainda vivem aqui. As pessoas continuam fugindo da violência de seus vilarejos para áreas mais seguras perto de cidades maiores. Os confrontos continuam a eclodir e continuamos a tratar os ferimentos causados ​​pelos combates. À noite, muitas vezes podemos ouvir tiros.

Muitas comunidades em Rokero e Umo dependem fortemente da assistência humanitária. Aproximadamente 60% da população não tem acesso aos serviços básicos de saúde. Dos 20 centros de saúde, apenas oito estão funcionando, incluindo os dois centros de saúde de MSF.

Nossos planos para 2020 foram desacelerados com a disseminação da COVID-19, mas no início de setembro pudemos abrir um pequeno centro de saúde básico em Umo. Quando a equipe chegou pela primeira vez, todos no local, incluindo idosos, mulheres e muitas crianças, nos acolheram com entusiasmo e expectativa. Desde então, servimos a essa comunidade seis dias por semana, com uma equipe de 20 experientes e dedicados funcionários sudaneses de MSF, alguns de Umo, outros de partes distintas de Darfur. Podemos tratar até 70 pacientes por dia.

As pessoas em Umo costumam sofrer lesões por quedas ou acidentes de bicicleta, e ainda é uma área de conflito ativa, então ferimentos a bala também são bastante comuns. Agora, no final da estação das chuvas, estamos tratando mais infecções do trato respiratório superior e doenças de pele causadas pelas más condições de vida.

Em minha primeira viagem a Umo, nos reunimos com os anciãos da comunidade para entender melhor a vida que levam, suas expectativas e suas necessidades de saúde. Nosso encontro foi caloroso e muito acolhedor. Os vilarejos têm trabalhado muito para melhorar suas condições de vida. Eles construíram alguma infraestrutura, como caminhos de pedra, mas não têm um centro de saúde em funcionamento há mais de uma década.

É uma jornada difícil até Umo, especialmente agora, durante a estação das chuvas, quando as trilhas se tornam lamacentas e pouco confiáveis. Fiquei feliz por ter aprendido a andar a cavalo com MSF na Etiópia em 2012, quando trabalhei em um projeto de nutrição que só poderia ser alcançado com uma cavalgada de uma hora. Mas naquele dia em Darfur, sentei-me em um burro por oito horas. De volta a Rokero, tive que caminhar 10 minutos apenas para sentir minhas pernas novamente.

Tenho enorme admiração por nosso distribuidor de medicamentos Najmadin Aden Mahamed, que viaja pelo menos uma vez por semana para trazer suprimentos. É difícil imaginar como seria essa viagem para uma mulher de Umo passando por complicações durante o parto.

O número de mortes entre mulheres grávidas e novas mães é alto em Darfur. Quando nos reunimos com os idosos da comunidade, eles nos disseram que algumas mulheres perdem seus bebês no primeiro trimestre de gravidez porque andam de burro e trabalham muito. O número de mulheres dando à luz na sala de parto de MSF ainda é baixo, mas começamos a fazer mais atividades de extensão na comunidade, conversando com idosos e interagindo com parteiras tradicionais. Os exames pré-natais, porém, já são muito frequentados por gestantes.

A maioria das pessoas aqui é formada por agricultores, cultivando sorgo e painço, mas anos de conflito frequentemente interromperam as atividades agrícolas, deixando famílias sem suas colheitas ou com apenas uma colheita ruim. Além disso, uma crise econômica no Sudão significa que muitas famílias não podem pagar os preços crescentes de produtos básicos. A maioria mal consegue pagar duas refeições básicas por dia. As mulheres têm que trabalhar muito, cuidando tanto dos campos quanto de seus filhos.

Nossa equipe está muito preocupada com a desnutrição entre as crianças de Umo. Durante nosso primeiro mês no local, o centro de alimentação terapêutica para pacientes ambulatoriais tratou 60 crianças gravemente desnutridas. No centro de alimentação terapêutica de MSF em Rokero, sempre temos cinco ou seis crianças gravemente desnutridas e sofrendo de complicações como diarreia ou infecções do trato respiratório. Há uma menina de 2 anos de idade que está sendo tratada no centro de alimentação. Sua mãe a trouxe sete dias atrás. Ela tinha desnutrição aguda severa, era fraca e pequena demais para sua idade. Ela mudou muito em apenas uma semana. É ativa e gosta de comer novamente. Sua mãe mal consegue acreditar como ela melhorou rapidamente. Ela também ficou surpresa com o fato de nossos serviços médicos serem gratuitos.

As distâncias nesta região isolada podem ser fatais. Elas tornam quase impossível o acesso a atendimento de emergência em tempo hábil. Pessoas morrem a caminho do nosso centro de saúde ou chegam a Rokero tarde demais para que sua condição seja tratada. Em nosso primeiro mês em Umo, perdemos dois pacientes a caminho de Rokero. Como profissional médico, isso é difícil de aceitar. Também ouvimos falar de pessoas doentes que vivem em áreas controladas pelos rebeldes e têm medo de procurar atendimento médico nas instalações do Ministério da Saúde.

É gratificante trabalhar com uma equipe tão experiente e dedicada. Temos 52 funcionários em Rokero e 20 em Umo, a maioria de Darfur. Ali Mohamed Doud é médico de emergência e nosso gerente de atividades médicas. Ele trabalhou com MSF em muitas emergências diferentes no Sudão.

Ali e os nossos outros colegas conhecem, por experiência própria, as esperanças e as preocupações das pessoas em Darfur. Eles sabem muito bem que muitas comunidades em Jebel Marra lutam para ter acesso ao básico, como saúde, água limpa e potável, educação e proteção. Alguns estão cautelosamente otimistas sobre um acordo de paz recentemente assinado entre o governo de transição sudanês e alguns grupos rebeldes. Há esperança de que possa ser um primeiro passo para a paz, reconciliação e estabilidade em Darfur, e uma chance para as muitas centenas de milhares de pessoas deslocadas voltarem para casa.

Tenho orgulho de fazer parte de uma equipe que responde diretamente às necessidades agudas de saúde e ajuda a salvar vidas em um lugar que há muito foi negligenciado e onde o acesso aos cuidados de saúde ainda é muito limitado.”

 

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