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Nigéria: “Algumas crianças sabem desenhar melhor uma arma do que uma bola de futebol”

11/09/2020
Kyla Storry é gerente de atividades de saúde mental de MSF em Gwoza e faz um relato sobre o impacto dos conflitos na região
Nigéria: “Algumas crianças sabem desenhar melhor uma arma do que uma bola de futebol”

Foto: Scott Hamilton/MSF

Gwoza, uma cidade no estado de Borno, no nordeste da Nigéria, é lar de 60 mil pessoas, muitas delas deslocadas de suas casas por causa de conflitos. As condições de vida são difíceis, há pouca ajuda humanitária e confrontos frequentes acontecem entre militares e grupos armados. Muitas pessoas em Gwoza presenciaram atos de violência ou perderam entes queridos, meios de subsistência e lares enquanto fugiam em busca de segurança. Isso inclui crianças, já que muitas das quais chegaram sozinhas a Gwoza.

Kyla Storry, gerente de atividades de saúde mental de MSF em Gwoza, descreve seu trabalho ajudando adultos e crianças a lidar com suas experiências.

Qual é a situação da saúde mental em Gwoza?

“As pessoas em Gwoza têm uma ampla gama de necessidades de saúde mental. Embora algumas delas sejam típicas das pressões relacionadas à vida diária como em qualquer lugar do mundo, muitas estão direta e indiretamente relacionadas aos conflitos em andamento. Questões como luto e perda, trauma, os fatores estressantes de viver em um campo para pessoas deslocadas, falta de emprego, preocupações constantes com a segurança e insegurança alimentar podem afetar a capacidade das pessoas de lidar com a situação. Nosso trabalho em Gwoza se concentra em ajudar as pessoas a aprenderem maneiras de lidar com os problemas em suas vidas, para que possam viver o melhor que puderem nessas circunstâncias difíceis.”

Como as crianças foram afetadas pelos conflitos?

Parece que não há ninguém em Gwoza que não tenha sido afetado pelos conflitos, incluindo crianças. Muitas crianças perderam familiares, foram arrancadas de suas casas, forçadas a fugir e algumas foram sequestradas. A vida em sua comunidade mudou drasticamente, e os pais e responsáveis estão altamente estressados, o que afeta o bem-estar das crianças. Vemos crianças fazendo xixi na cama, tendo pesadelos e tendo problemas na escola. As crianças tendem a representar o que sabem, então algumas que foram expostas à violência se envolvem em brincadeiras que incluem tiroteios e assassinatos com seus amigos. Quando recebem papel e lápis para desenhar, algumas crianças podem desenhar melhor armas do que uma bola de futebol ou animais.”

Como MSF está apoiando a saúde mental das crianças?

“Sabemos que o número de crianças que necessitam de serviços de saúde mental é significativo. MSF investiu em serviços de saúde mental em Gwoza por meio de pessoal, educação e treinamento. Profissionais comunitários de saúde mental foram contratados para conscientizar e educar a população local sobre saúde mental. Eles conversam com adultos e crianças sobre preocupações comuns e examinam aqueles que podem se beneficiar do aconselhamento. Os conselheiros têm recebido treinamento para cuidar não apenas das crianças necessitadas, mas também de suas famílias, visto que os problemas com que essas crianças estão lidando geralmente afetam a todos em casa. Cuidadores mentalmente saudáveis são essenciais para criar crianças mentalmente saudáveis, por isso nossa equipe está trabalhando duro para atender às necessidades de todos os envolvidos.”

Você pode dar um exemplo de atividade de saúde mental?

“Uma das minhas atividades favoritas todos os dias é o grupo que oferecemos para cuidadores e crianças pequenas que sofrem de problemas como desnutrição, amputação, queimaduras graves e doenças fatais. Neste grupo, usamos a brincadeira como forma de educar os cuidadores sobre a importância de se envolver com as crianças. Ensinamos estratégias de educação infantil, oferecemos uma oportunidade para os cuidadores discutirem os desafios que enfrentam, obter o apoio de seus colegas e encorajamos o desenvolvimento de um forte vínculo com seus filhos. É sempre um grupo divertido de participar e dá a todos uma pausa necessária do trabalho diário na enfermaria do hospital.”

 Dadas as condições de vida precárias das pessoas em Gwoza, quais são suas preocupações com o futuro?

“Em primeiro lugar, gostaria de destacar que a vida continua, apesar das condições difíceis. As pessoas que vivem em Gwoza demonstram um alto nível de resiliência, o que ajuda a sobreviver no contexto atual. Para muitos adultos, sua fé religiosa é particularmente importante em momentos como este e a oração é uma técnica de enfrentamento muito usada. Para as crianças, envolver-se em brincadeiras positivas e ter um cuidador que possa confortá-las e acariciá-las quando necessário é muito importante. O trabalho de MSF, junto com as autoridades de saúde locais, é regularmente composto de histórias de sucesso.

No entanto, a situação continua extremamente preocupante. Já se passaram dez anos desde o início do conflito. Esta crise de longo prazo - que afeta mais de 60 mil pessoas em Gwoza e cerca de 1,8 milhão em todo o estado de Borno - impede a maioria das pessoas de imaginar um futuro para si mesmas e causa grande sofrimento psicológico. Enquanto durar a crise, a necessidade de apoio à saúde mental continuará a crescer. É fundamental que os cuidados de saúde mental estejam disponíveis para crianças e adultos que vivem nesta situação.”


 

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