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MSF retoma atendimentos por clínicas móveis nos campos de Abs, no Iêmen

19/10/2020
Equipes fornecem água potável e kits de higiene e atendem, sobretudo, crianças desnutridas e mulheres grávidas
MSF retoma atendimentos por clínicas móveis nos campos de Abs, no Iêmen

Foto: Tareq Farhan

MSF recentemente reiniciou as atividades médicas para pessoas deslocadas no distrito de Abs, no Iêmen. A pandemia de COVID-19 forçou que suspendêssemos as atividades de clínicas móveis, deixando milhares de famílias com ainda menos possibilidades de acesso a cuidados básicos de saúde. Paralelamente, a equipe de MSF no hospital Abs presencia um aumento no número de consultas, após um período durante o qual o medo de contrair o novo coronavírus manteve muitas pessoas longe dos centros de saúde. Situação que retardou os cuidados que requerem atenção médica, principalmente crianças com desnutrição grave.

É fim de setembro, mas a temperatura às 8h30 quase atinge 40°C e o ar quente e úmido torna a respiração difícil. Famílias no acampamento Khudish, um dos mais populosos da área - cerca de 10 mil pessoas, segundo dados oficiais - veem veículos de MSF se aproximando e sabem que, pela primeira vez em meses, uma clínica móvel estará disponível para eles. Eles começam a se reunir no local de costume e as crianças correm porque sabem que em um dos carros há um grande carregador de água. E o que eles precisam agora é água fria.

“Encontrar água limpa é um dos principais desafios nesses campos e as pessoas costumam procurá-la em poços, onde não é potável”, afirma Tareq Farhan, gerente médico de MSF. “Vemos muitos casos de diarreia causados ​​por água de poço contaminada.”

Equipes de clínicas móveis também tratam inúmeras pessoas com doenças de pele decorrentes da falta de água potável e itens de higiene. Desde que as três primeiras clínicas móveis retomaram suas atividades nos campos de Khudish, Bani Mushta e Almatayn, quase 300 consultas foram realizadas, a maioria delas com crianças menores de 5 anos de idade e mulheres grávidas. Atividades adicionais, como testes laboratoriais rápidos para detectar a malária ou determinar os níveis de glicose ou proteína, também foram reiniciadas.

O distrito de Abs, na governadoria de Hajjah, acolhe cerca de 150 mil pessoas deslocadas que tiveram que deixar suas casas por causa da guerra de cinco anos que devastou o país. Muitas famílias vivem há anos em condições extremamente difíceis e um dos principais desafios que enfrentam é não ter os cuidados de saúde mais básicos. Isso se soma aos problemas recorrentes de encontrar bens essenciais, alimentos e água potável. Suas vidas, que antes eram difíceis, tornaram-se ainda mais complicadas com a COVID-19. Além do risco de infecção, a pouca assistência humanitária que recebiam se tornou menos frequente e o medo de ir aos centros de saúde aumentou. Muitas pessoas acham que as medidas de prevenção em vigor não as protegerão.

MSF está presente em Abs desde 2015 para atender às necessidades das pessoas deslocadas e apoiar os centros de saúde da região, incluindo o maior hospital. Mas o início da pandemia tornou muito difícil para as equipes chegarem aos locais onde os deslocados se instalaram temporariamente.

Fatma Ziyad é de Khudish e está grávida de seu sétimo filho. “Vim fazer um check-up porque estava com alguns problemas na gravidez”, informa ela. “O pessoal de MSF me disse que preciso de um exame mensal, quando também receberei vitaminas.”

Alguns pacientes com condições graves são encaminhados para o hospital Abs com apoio de MSF. “Estamos vendo um grande número de casos mais graves”, avalia Tareq Farhan. “Muitos tinham medo de ir a hospitais por causa da COVID-19 e suas doenças pioraram. Não podemos tratá-los aqui, já que requerem atenção hospitalar.”

Muitos casos que chegam ao hospital estão relacionados à desnutrição causada por outras condições que não foram tratadas adequadamente a tempo. Foi o que aconteceu com Al Anoud, uma menina de 9 meses do distrito de Aslam, a cerca de 20 quilômetros de distância. As avós dela estão no Hospital Abs para cuidar dela. Seu pai tem que cuidar das poucas ovelhas que permitem à família ganhar a vida e sua mãe está grávida e tem problemas para se mover.

“Al Anoud foi levada primeiro a um posto de saúde local, onde não recebeu tratamento adequado e acabou sendo transferida para o Hospital Abs”, explica uma das avós. “Ela está em tratamento para desnutrição grave, septicemia e pneumonia. Ela ainda está hospitalizada, mas após seis dias de tratamento sua condição está melhorando lentamente.”

O Hospital Abs fica muito longe da cidade natal da família. “Demoramos três horas para chegar e tivemos que conseguir um carro particular, o que é muito caro”, conta a avó. “Pegar um ônibus significaria andar por montanhas e vales para chegar à estrada principal e depois esperar. A condição de Al Anoud não podia esperar."

Paulo Milanesio, coordenador do projeto de MSF em Abs, diz que este é um caso típico. “Já tínhamos essas situações, mas a pandemia agravou a chegada tardia de pacientes, principalmente crianças. Eles chegam com condições piores porque as famílias estão esperando muito tempo.”

“Durante meses, vimos nossas taxas de frequência diminuírem e agora muitas das famílias que tinham medo da COVID-19 estão vindo quando as condições de seus parentes são muito ruins. Isso torna o tratamento mais complexo. Só esperamos que as pessoas vejam que vir ao hospital é seguro e cheguem a tempo para buscar tratamento para seus parentes.”

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