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MSF identifica lacunas na promoção de saúde comunitária na resposta em Portugal à COVID-19

14/07/2021
Atividades em bairros vulneráveis foram desenvolvidas, entre março e julho, em cooperação com associações locais e multiplicadores de saúde das próprias comunidades
COVID-19: ação MSF em bairros vulneráveis em Portugal

© Carolina Sousa/MSF

 

A Médicos Sem Fronteiras (MSF) desenvolveu um projeto de resposta à pandemia da COVID-19 em Portugal, entre março e julho de 2021, com uma abordagem centrada na promoção de saúde comunitária em bairros vulneráveis na região de Lisboa e Vale do Tejo, junto de comunidades maioritariamente de ascêndencia africana e de comunidades ciganas. Esta ação teve o propósito de acompanhar o desconfinamento e ajudar a mitigar o impacto e o risco de surgimento de novos focos da doença nestas comunidades vulneráveis, assim como ajudar a melhorar as estratégias comunitárias de prevenção do contágio e disseminação do SarsCov-2.

Apesar de existir em Portugal uma estratégia formal de saúde comunitária, a MSF identificou que a falta de implementação de uma abordagem específica direcionada às comunidades com maior vulnerabilidade sócio-económica, e que têm sido historicamente negligenciadas, constituía a principal lacuna na resposta à COVID-19 no país. Mesmo havendo um elevado nível de cuidados de saúde em Portugal, aquela lacuna de implementação de uma estratégia comunitária exclui uma larga parte das pessoas de acederem aos beneficios do sistema de saúde e à informação necessária para se manterem saúdáveis.

Acresce que um terço da comunidade cigana em Portugal vive ainda em condições de habitação precária, frequentemente sem acesso a água, saneamento e eletricidade, registando mais baixos indicadores de saúde. Na comunidade de ascêndencia africana verifica-se ainda a existência de áreas de bairros de construção irregular com muito frágeis condições de habitabilidade dentro da Área Metropolitana de Lisboa, como é o caso do bairro de Santa Marta de Corroios, no Seixal.

Nas visitas feitas a comunidades de ascendência africana e comunidades ciganas que vivem em bairros vulneráveis, a equipa da MSF pôde ouvir as preocupações das populações e identificar como a pandemia da COVID-19 afeta as suas vidas. Ficou claro que a organização médica humanitária poderia trazer um valor acrescentado através de atividades de educação e de promoção de saúde dentro e com o envolvimento destas comunidades, uma vez que se verificou que as necessidades por informação assinaladas pelas pessoas persistiam mesmo já passado um ano desde o início da pandemia.

 “A nossa abordagem inicial aqui em Portugal veio muito da ideia de que a pandemia da COVID-19 evidenciou desigualdades já existentes em todos os países. Muito rapidamente nos deparámos com populações bastante negligenciadas dentro da região metropolitana de Lisboa, que foi a região onde implementámos as nossas atividades principais. E muito rapidamente verificámos existir uma falta muito grande de informação – apesar do excesso de informação, há uma falta de informação clara e de uma comunicação clara com esta população”, frisa a coordenadora médica do projeto MSF em Portugal, Cecilia Hirata Terra.

A MSF verificou que as especificidades culturais e a realidade de cada grupo não estavam a ser tidas em conta na comunicação feita em larga escala pelas autoridades sobre as medidas de prevenção e controlo do contágio. Da falta de uma estratégia de comunicação que parta da realidade do público a que se destina decorre uma menor identificação com as mensagens veiculadas e uma mais baixa adesão às recomendações – o que reforça a vulnerabilidade e a exclusão de alguns grupos. Nesta lacuna nas atividades de promoção de saúde dirigidas a comunidades vulneráveis inclui-se a perceção do sofrimento emocional e gestão do mesmo.

As atividades da organização médica-humanitária assentaram na promoção e educação para a saúde, com partilha de informação sobre a doença, sinais, sintomas e propagação, comportamentos individuais e coletivos e o seu impacto nas cadeias de transmissão, além de essenciais conhecimentos sobre prevenção e controlo do contágio, e sensibilização sobre vacinação.

Este projeto foi desenvolvido através de promotores de saúde que funcionaram como multiplicadores dentros das suas comunidades, e foi realizado em português, crioulo e outras línguas relevantes para a adequada comunicação com as comunidades. As atividades envolveram cinco associações locais em cinco bairros da Área Metropolitana de Lisboa – Ameixoeira, Alta de Lisboa, Cova da Moura, Casal da Mira e Casal da Boba – e foram feitas ainda ações pontuais em outras cidades de Norte a Sul do país. As atividades de promoção de saúde comunitária junto dos residentes nos bairros foram levadas a cabo por multiplicadores selecionados por cada uma das associações locais e que receberam formação da MSF: no total, o projeto contou com 39 multiplicadores de saúde comunitária.

“As associações surgiram como parceiras naturais das nossas atividades, enquanto representantes da sociedade. Portugal tem associações fortes, associações ativas dentro das suas próprias comunidades. E naturalmente, dentro do contexto português, fomos levados a fazer parcerias com essas associações e a adicionar esse componente de saúde às atividades que estas associações já tinham”, explica ainda Cecilia Hirata Terra.

O projeto foi enriquecido com atividades de apoio em saúde mental. Através de um desenvolvimento gradual da componente transversal de saúde mental foi possível quebrar o estigma relacionado com o sofrimento emocional e aumentar a consciencialização dos multiplicadores de saúde comunitária e dos residentes nos bairros sobre a importância de reconhecer mecanismos para gerir esse sofrimento.

As atividades neste projeto foram complementadas com a doação de kits de prevenção da COVID-19, de forma a providenciar às comunidades mais carenciadas os mínimos instrumentos necessários para um desconfinamento seguro. Comunidades indentificadas como extremente precárias receberam distribuições de kits familiares de prevenção da COVID-19. Foram distribuídos diretamente, através das equipas MSF ou organizações parceiras, quase 2 000 kits familiares, sendo 834 direcionados a comunidades ciganas de Norte a Sul do país.

As ações foram ainda acompanhadas por uma campanha de promoção de saúde digital, com enfoque principal nas regras de prevenção – desinfeção das mãos, distanciamento físico e etiqueta respiratória e uso correto da máscara – e no encorajamento de as pessoas cuidarem umas das outras nas suas comunidades adotando os comportamentos de prevenção. Estabelecimentos comerciais localizados nas mesmas regiões também receberam formação em prevenção e controlo de infeção, com a instalação de cartazes e orientações sobre higienização e ventilação dos espaços.

O trabalho da MSF está sempre norteado pelo empenho em providenciar apoio aos grupos mais vulneráveis e já durante a primeira vaga da COVID-19 em Portugal, a organização médica-humanitária ativou um projeto de resposta, promovendo a prestação de cuidados adequados, dignos e humanizados nos lares de pessoas idosas.

Entre abril e maio de 2020, foram desenvolvidas atividades de avaliação de risco de propagação do novo coronavírus e formação de profissionais que trabalham nos lares, com enfoque nas medidas de prevenção e de controlo dos contágios. Foi prestado apoio em 34 lares de idosos, em 12 concelhos do país, acompanhado da doação de equipamentos de proteção individual e de materiais de higiene.
 

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