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Incerteza e hospitais lotados: médicos de MSF relatam atendimento à população no Afeganistão

31/08/2021
Com serviços de saúde prejudicados pelos conflitos, pessoas doentes e feridas enfrentam dificuldades para ter acesso aos cuidados que necessitam
Incerteza e hospitais lotados: médicos de MSF relatam atendimento à população no Afeganistão

Foto: Tom Casey/MSF

Após a rápida transição de poder no Afeganistão, houve uma grande mudança no contexto da saúde no país. Mesmo com os conflitos recentes, Médicos Sem Fronteiras (MSF) continua realizando suas atividades médicas em cinco projetos localizados em Herat, Kandahar, Khost, Kunduz e Lashkar Gah.

Abaixo, dois médicos que trabalham em Lashkar Gah e Khost descrevem as mudanças recentes que testemunharam e como elas afetam tanto os pacientes quanto os profissionais de saúde.

Lashkar Gah: “Nosso hospital agora está lotado”

A situação em Lashkar Gah agora está mais calma, mas ainda há alguma ansiedade e incerteza. As pessoas, que evitaram sair de casa para receber ajuda médica enquanto havia combates ativos, estão chegando ao hospital provincial de Boost, apoiado por MSF.

Com isso, nos últimos dias, o pronto-socorro ficou lotado, com muitas pessoas sofrendo de problemas respiratórios, gastrointestinais e ferimentos em decorrência dos combates ou de acidentes de trânsito. Entre 15 e 21 de agosto, mais de 3.600 pacientes foram atendidos no pronto-socorro e 415 foram internados.

Um médico que trabalha no hospital de Boost compartilha sua experiência

“No dia 1º de agosto, cheguei ao hospital provincial de Boost, em Lashkar Gah, e passei 13 dias trabalhando lá. As necessidades médicas eram muito altas, pois recebemos muitas pessoas feridas no conflito. Mas a maioria de nossos pacientes regulares (crianças doentes, mulheres grávidas e pessoas que precisam de cuidados cirúrgicos mais rotineiros), que antes eram em torno de 500 por dia, não chegaram até nós porque o acesso ao hospital às vezes era impossibilitado pelos combates.

Nossa equipe teve pouco descanso. Quando os pacientes chegavam, acordávamos e corríamos para o pronto-socorro. Ficamos dia e noite no hospital para tratar nossos pacientes, pois do lado de fora era muito perigoso.

Depois que os conflitos terminaram em 13 de agosto, paramos de ouvir os sons pesados de ataques aéreos, foguetes e morteiros. As estradas da cidade e dos bairros do entorno estão abertas e as pessoas voltam ao hospital. O número de pacientes aumentou tremendamente. Ao longo da última semana, estamos recebendo mais de 700 pessoas por dia em nosso pronto-socorro, às vezes, mais de 800. Em 21 de agosto, atendemos 862 pessoas em nosso pronto-socorro, o que eu acho que é o máximo que já recebemos. Alguns pacientes estão chegando em condições críticas porque esperaram até que os combates cessassem para buscar ajuda médica.

Acho que uma razão pela qual estamos atendendo a esse grande número de pacientes em nosso hospital é porque outras clínicas locais não têm mais capacidade de atender às necessidades das pessoas. Enviamos cerca de 200 pacientes menos críticos para essas clínicas todos os dias, mas muitos voltam relatando que as unidades de saúde não têm os medicamentos de que precisam ou estão fechadas por falta de pessoal.

Nosso hospital está lotado, e não temos como receber novos pacientes. Já temos mais de 300 pessoas em tratamento no hospital. Já temos mais pacientes em nosso hospital do que leitos, então quanto mais pacientes recebemos no pronto-socorro, maior é o problema para encontrar espaço para acomodá-los dentro da unidade de saúde. Eles estão esperando muito tempo no pronto-socorro, enquanto tentamos encontrar uma vaga. Temos dois pacientes por cama na ala pediátrica, mas ainda estamos lutando para encontrar espaço para todos. Portanto, avaliamos a gravidade da condição de cada paciente, porque quanto mais graves, mais eles precisam de internação.

Todos os dias, entre 80 e 100 das pessoas que avaliamos têm condições graves o suficiente para que sejam tratadas como pacientes internados no hospital. Isso nos obriga a dar alta a outros pacientes para criar espaço para eles. Este é um dos grandes desafios do momento. Não sei como podemos resolver isso a longo prazo, mas por enquanto, estamos diminuindo o tempo de internação, dando alta e fornecendo os medicamentos de que precisam para que tomem em casa, a menos que estejam em um estado muito crítico. Nossa unidade de terapia intensiva também está cheia. Todos os acessos aos distritos já estão abertos, esse é outro motivo de estarmos recebendo tantos pacientes, pois eles vêm de fora da cidade.

Khost: “Para aumentar o acesso à saúde, ampliamos nossos critérios de admissão”

Em Khost, MSF administra uma maternidade e dá suporte a oito centros de saúde em áreas rurais. Entre 15 e 22 de agosto, o hospital admitiu 402 mulheres grávidas, que deram à luz a 338 recém-nascidos. Trinta e três bebês foram tratados na enfermaria neonatal do hospital.

Um médico que trabalha no hospital compartilha sua experiência

“Embora a cidade de Khost não tenha passado pelos combates pesados vistos em outros lugares, estamos enfrentando tempos difíceis. Mercados, sistemas de transporte locais e a maioria das clínicas privadas estão fechados. O acesso das pessoas aos cuidados de saúde agora é muito limitado. Um único parto em uma clínica particular pode custar de 3 a 5 mil afeganes (moeda local), cerca de US$ 35 a US$ 60 dólares, o que aqui é uma soma considerável e aumenta a pressão sobre as famílias.

As pessoas estão enfrentando muitas incertezas, principalmente as mulheres grávidas. Elas tentam economizar dinheiro, e como MSF oferece seus serviços gratuitamente, muitas estão vindo para a maternidade de MSF em Khost.

Anteriormente, essa unidade médica se concentrava em fornecer cuidados médicos a mulheres grávidas que enfrentavam complicações. No entanto, para aumentar o acesso à saúde para a comunidade, ampliamos nossos critérios de admissão e agora prestamos atendimento médico a qualquer mulher grávida para ajudá-la no parto.

Recebemos relatos das organizações locais com as quais trabalhamos sobre a dificuldade de acesso à saúde que as comunidades remotas enfrentam. O sistema de transporte não está funcionando totalmente, e estamos preocupados com o desabastecimento de medicamentos essenciais que salvam vidas.

Apesar desses desafios, MSF está comprometida em continuar suas atividades médicas e atender às necessidades de saúde de mães e crianças em comunidades afetadas por conflitos.

 

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