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Iêmen: em busca de assistência médica em uma cidade dividida pela linha de frente dos conflitos

27/08/2021
A cidade de Taiz, conhecida como capital cultural do Iêmen, tem sido assolada pela violência dos quase sete anos de guerra civil no país
Iêmen: em busca de assistência médica em uma cidade dividida pela linha de frente dos conflitos

Foto: Nasir Ghafoor/MSF

“O medo constante e a sensação de estar perto da morte são horríveis. Nós temos sido bombardeados com granadas. Uma vez, uma bomba atingiu minha irmã e feriu um de seus olhos. Eu nunca vou esquecer de vê-la sangrando. Corremos para nos esconder quando o bombardeio começa. Meus filhos se escondem aterrorizados sob os cobertores”, disse Wafa Muhammad Abdullah. Wafa, de 30 anos, está entre cerca de um milhão de residentes da cidade de Taiz que enfrenta um conflito implacável e hostil há mais de seis anos.

Conhecida como a capital cultural do Iêmen, a cidade de Taiz tem sido um dos campos de batalha urbanos na guerra civil em curso no país. A cidade testemunhou tiroteios nas ruas e bombardeios contra sua população, resultando em mortes, ferimentos de guerra, traumas psicológicos e a paralisação da vida normal.

Localizada nas terras montanhosas ao sudoeste do país, perto da cidade portuária de Mocha, no Mar Vermelho, Taiz é a terceira cidade mais populosa do Iêmen. Ela se tornou um foco para a violência semanas após a eclosão do conflito no país em 2015. Desde então, dificilmente houve um dia em que o povo de Taiz dormiu pacificamente, sem bombardeios, disparos de arma de fogo, ataques com foguetes ou ataques aéreos.

As marcas de balas e projéteis nas casas e as pilhas de estruturas desmoronadas causadas pelos ataques aéreos ilustram a história de destruição pela guerra que entra em seu sétimo ano. Depois de anos de lutas intensas, a linha de frente da batalha em Taiz deixa uma cicatriz em toda a cidade. Ela vai de leste a oeste, com Al Houban, que já foi um bairro de Taiz, separado do resto da cidade. Coberta por minas terrestres, a linha de frente no meio da cidade agora é uma terra sem dono, vigiada por atiradores de elite. Isso deu à capital cultural do Iêmen um novo nome: a cidade dos atiradores.

Hesham, um morador da cidade de Taiz, relembra o incidente quando foi vítima de um tiro de um franco-atirador. “Eu estava em frente ao Hospital Sueco do Iêmen, acompanhando minha filha que sofria de epilepsia. Deixei-a com a mãe para ir pedir dinheiro emprestado aos vizinhos. Ao sair, fui surpreendido por um tiro de um franco-atirador que atingiu meu ombro esquerdo. Meu corpo estava coberto de sangue, tentei estancar o sangramento com a mão. No mesmo momento, pisei em uma mina terrestre que explodiu instantaneamente. Eu perdi minha perna na explosão. Não há apoio, nem mesmo um membro artificial, com o qual eu pudesse me mover ou andar. Não há nada”.

Cidade dividida e restrição de mobilidade

O centro da cidade está isolado do resto do país. A cidade de Taiz está sob a administração do governo internacionalmente reconhecido do Iêmen, enquanto o lado norte da cidade fica na parte controlada pelo movimento Ansar Allah da governadoria de Taiz.

Uma viagem da cidade de Taiz a Al-Houban, que demorava 10 minutos antes do conflito, agora leva cerca de cinco a seis horas para evitar a linha de frente. As pessoas viajam quilômetros através das montanhas antes de voltar na mesma direção que vieram, apenas para chegar a uma área que possam ver de seu telhado em um dia claro. Isso restringiu amplamente a mobilidade das pessoas, tornando a viagem entre os dois bairros cara, longa e exaustiva.

Desafios econômicos para a população

Como qualquer outra parte do Iêmen, o conflito em Taiz trouxe desafios econômicos significativos para a população. As pessoas viram os preços dos alimentos e outras necessidades subindo, às vezes, até 500 vezes desde o início dos combates. Ao mesmo tempo, o poder de compra da população diminuiu. Os funcionários públicos, especialmente os profissionais da saúde que trabalham em hospitais públicos, raramente são pagos, levando ao fechamento de várias instalações médicas.

“Eu trabalho como enfermeira pediátrica no hospital Al-Thura, em Taiz. Não recebo regularmente meu salário, então faço um segundo trabalho à noite em um hospital privado. Os preços dos alimentos e tudo mais são tão altos que meus dois salários não são suficientes para ter uma vida boa”, explica Ahmad, cujo vilarejo fica a apenas oito quilômetros da cidade de Taiz, mas ele viaja por quatro horas para evitar a linha de frente do conflito. “A situação era boa antes da guerra. Era fácil viajar a qualquer hora sem medo e a um preço acessível. As estradas principais estão fechadas agora”.

Sistemas de saúde impactos pela guerra

O sistema de saúde não conseguiu escapar das consequências da guerra. Mais da metade das unidades de saúde pública do Iêmen não funcionam total ou parcialmente. Algumas das que estão abertas estão à beira do fechamento, sem medicamentos, profissionais e recursos. Enquanto isso, o sistema privado de saúde não é acessível para as pessoas que já enfrentam dificuldades para comprar alimentos.

Hanan Rasheed Abdu Ali, 40 anos, deu entrada na enfermaria pós-operatória depois de dar à luz ao seu terceiro filho por meio de uma cesariana na maternidade do hospital Al-Jamhouri, apoiado por Médicos Sem Fronteiras (MSF), na cidade de Taiz. Seus dois partos anteriores também foram por meio de uma cesariana, então ela sabia desde o primeiro dia de gravidez que outra cirurgia seria inevitável.

Hanan mora com o marido em Aden, a sete horas de viagem da cidade de Taiz. Mesmo assim, Hanan viajou de Aden até Taiz para realizar seu parto nas instalações apoiadas por MSF. Ela não tinha outra escolha, pois o marido não tinha condições de arcar com os altos custos de uma cesariana em um hospital público ou privado.

“Ouvimos dizer que MSF ajuda as pessoas e lhes dá tudo de graça. Então, vim para a cidade de Taiz para dar à luz ”, disse Hanan. “A guerra destruiu as casas. Os institutos educacionais e hospitais entraram em colapso. Não havia eletricidade, os preços dos alimentos aumentaram e os salários não eram pagos. Aqueles que não morreram pela guerra, morreram de fome”.

Hospitais foram fechados e tornou-se difícil para as pessoas comprar medicamentos. A maioria das pessoas estava morrendo porque não conseguia obter os remédios necessários. Não se pode ir a hospitais privados porque seus preços são altos. Algumas mães morreram por falta de tratamento”.

MSF apoia sistema de saúde de Taiz desde o início de 2016

O povo de Taiz depende em grande parte do apoio fornecido pelos agentes humanitários. MSF tem apoiado os serviços de saúde desde o início de 2016, alguns meses após o início do conflito em 2015.

Em 2020, após uma avaliação aprofundada de várias instalações médicas e por meio de discussões com pacientes, grupos comunitários e interlocutores importantes, MSF identificou os serviços de saúde reprodutiva de nível secundário gratuitos e especializados como uma das principais necessidades da população da cidade de Taiz. A maternidade do hospital Al-Jamhouri, agora apoiada por MSF, auxilia cerca de 350 partos por mês, e as equipes admitem 50 recém-nascidos na unidade de cuidados especiais para bebês. Mais de 1.500 mulheres procuram serviços pré-natais ou pós-natais do hospital por mês também.

“MSF continua empenhada em atender às necessidades urgentes de saúde da população de Taiz. Atuamos em ambos os lados da linha de frente, oferecendo cuidados maternos e neonatais gratuitos de qualidade, que é uma das maiores necessidades na área”, disse Emilio, coordenador do projeto de MSF. “Recebemos pacientes de áreas distantes. As mulheres fazem viagens difíceis durante horas para chegar à cidade de Taiz e buscar nossos serviços porque não os têm perto de suas casas. Considerando as restrições de viagem e as rotas difíceis, muitas não conseguem chegar a Taiz ou ir a qualquer outro lugar”.

Com uma linha de frente no seu coração, a cidade de Taiz é perigosa e o acesso do resto do país é difícil.  Isso também dificulta o apoio dos atores humanitários, mas isso não deve ser esquecido.

“Há uma necessidade urgente de fortalecer o sistema de saúde em uma província altamente populosa como a de Taiz. Apelamos aos atores humanitários para que apoiem as unidades de saúde primárias para garantir cuidados básicos às mulheres perto de suas casas”.

Considerando a grande e densa população de Taiz, o conflito trouxe danos catastróficos à cidade. Por ser uma grande cidade, é também um polo de instalações econômicas, educacionais e de saúde para a região, assim, seu cerco criou um impacto negativo não só na cidade e no governo, mas também nas áreas vizinhas.

Os danos tangíveis para a cidade são enormes e, sem esperança de um amanhã melhor, o conflito de longa data também está configurando uma catástrofe de saúde mental para a população em geral.

“Desejo que meus filhos tenham uma vida melhor. Rezo por dias bons, mas não acho que a vida do povo iemenita vai melhorar. Não tenho esperança”, disse uma mãe.

 

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