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“A dor de Safia na enfermaria me consome”

21/10/2020
Coordenadora do hospital Boost, apoiado por MSF no Afeganistão, Mariana Cortesi relata como a violência impactou a vida de uma paciente
“A dor de Safia na enfermaria me consome”

Foto: Elise Moulin/MSF

A cidade de Lashkar Gah, na província de Helmand, no sul do Afeganistão, está vivendo um conflito armado. Apoiamos o hospital Boost na região e nossos profissionais vivenciam histórias de terror que atingem principalmente mulheres, grávidas ou mães recentes. Confira abaixo o relato de Mariana Cortesi, coordenadora do hospital. O nome da paciente foi alterado para manter a sua segurança.

“Os pesados ​​confrontos que eclodiram dentro e ao redor da cidade de Lashkar Gah, em 11 de outubro, até agora não mostram sinais que vão diminuir. O principal hospital para feridos, administrado por outra organização médica, permanece sob pressão. MSF apoia o hospital rural Boost nas proximidades e tem atuado como um centro superlotado para responder ao fluxo de feridos.
Dos 52 pacientes feridos que recebemos entre 11 e 14 de outubro - todos com histórias tão devastadoras quanto seus ferimentos – uma mulher em particular me pediu para compartilhar sua história. Além do atendimento médico que recebeu, sinto a mesma responsabilidade por garantir que sua voz seja ouvida.

Sentei-me com Safia. Sua força e resiliência ainda estavam presentes, mas eu sabia que sua barriga dolorida e agora vazia seria uma lembrança vitalícia do bebê morto em seu útero. E de seu sofrimento indescritível pela perda desse filho que ela tanto desejava.
Safia estava grávida de 7 meses. Estava muito feliz com a gravidez e, desde o momento em que engravidou, toda a família a tratou cuidadosamente. Todos estavam ansiosos para o nascimento. Estava tão perto agora que me disseram que já sentiam que poderiam arrumar as roupas para quando o recém-chegado fosse recebido em casa.

No domingo, Safia estava conversando fora de sua casa. O tempo está mudando no Afeganistão, é um pouco mais fresco e menos desconfortável estar do lado de fora. Mas naquele dia, algo mais do que o tempo estava mudando visivelmente. Desde o dia anterior, as pessoas do vilarejo de Safia ouviam os sons dos conflitos se aproximando. E naquele dia talvez estivesse perto demais. De repente, ela sentiu uma dor. Uma bala perdida perfurou os dois - mãe e filho ainda não nascido.

E assim, sua jornada começou. Correr para o hospital antes que fosse tarde demais. Mas correr não é fácil aqui em torno de Lashkar Gah, e a família precisou tomar um caminho diferente e mais longo para o hospital por causa dos combates.

Depois de viajar por horas, Safia foi então encaminhada da primeira unidade de saúde que chegou para o hospital Boost, apoiado por MSF. E é por isso que Safia e eu nos cruzamos. Depois de uma cesariana que salvou sua vida, ela agora está estável. Mas sem seu filho.

Na segunda-feira, a família voltou ao seu vilarejo para enterrar o bebê. Safia permaneceu conosco na UTI. Mas quando seus familiares se reuniram para a cerimônia, tiveram que fugir de um tiroteio e voltaram para o hospital para esperar a alta de Safia. A dor de Safia na enfermaria me consome - no útero ou no túmulo, seu primogênito não teve paz.”

 

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