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5 fatos interessantes sobre os 30 anos de MSF no Brasil

23/09/2021
Em 2021, MSF completa três décadas de atuação no país com atividades direcionadas ao atendimento das populações mais vulneráveis
5 fatos interessantes sobre os 30 anos de MSF no Brasil

Foto: Diego Baravelli/MSF

O primeiro projeto de Médicos Sem Fronteiras (MSF) no Brasil ocorreu na região Norte, em 1991. Desde então, a organização cresceu de maneira intensa e constante no país. Em 2020, cerca de 600 mil doadores colaboraram com MSF-Brasil para que a organização pudesse responder a emergências e crises humanitárias em mais de 80 países, incluindo o Brasil. No mesmo ano, o enorme impacto da pandemia de COVID-19 motivou o lançamento da maior operação de Médicos Sem Fronteiras (MSF) até hoje no país. Centenas de profissionais de MSF, a maioria brasileiros, responderam à crise. E, todos os anos, centenas de profissionais brasileiros se juntam a equipes de MSF em projetos pelo mundo.
Ao longo dos anos, a organização se firmou como uma voz importante para que os brasileiros conheçam as inúmeras crises humanitárias que continuam acontecendo em todo o planeta. Além disso, consolidou-se como participante ativa das discussões referentes a temas fundamentais para a saúde no país, como o acesso a diagnósticos, medicamentos e vacinas. Essa legitimidade foi, em grande parte, construída em campo, junto dos pacientes, escrevendo com muito trabalho uma história que agora completa 30 anos. Confira 5 fatos interessantes sobre essa trajetória:

1 – Engajamento indígena

Foto: Diego Baravelli/MSF

Em 1991, quando uma epidemia de cólera chegou ao Brasil pela região amazônica e atingiu diversas comunidades ribeirinhas e aldeias indígenas — cuja distância dos centros urbanos e a falta de infraestrutura as tornaram ainda mais vulneráveis —, MSF iniciou suas primeiras atividades no país. Os projetos em comunidades indígenas se estenderam por uma larga escala de tempo e território. Em 1993, a organização foi para Roraima. Dessa vez, o foco era o combate à malária, que atingia principalmente as etnias Yanomami e Macuxi. MSF levou atendimento médico às comunidades e, assim como no projeto de cólera, optou pelo treinamento de profissionais locais, agregando a formação de microscopistas.

Jacir de Souza, hoje com mais de 70 anos, é uma das lideranças Macuxi que fizeram parte do projeto. “Tinha muita malária naquela época e acabou, acabou mesmo. Médicos Sem Fronteiras chegou à comunidade, nós explicamos a situação, eles nos entenderam e começamos a trabalhar juntos. Eles queriam ficar na vila, mas eu disse: ‘Se querem trabalhar com o povo indígena, tem que ser dentro da nossa comunidade’”, contou Jacir, que voltou a ter contato com a organização em 2020, quando foi infectado pelo vírus da COVID-19 e permaneceu no Hospital de Campanha de Boa Vista, onde MSF atuou na UTI.

Atualmente, o estado de Roraima é a principal porta de entrada no Brasil para migrantes venezuelanos que fogem da crise econômica, política e social em seu país, incluindo comunidades indígenas. Desde outubro de 2018, MSF oferece suporte psicossocial e atividades de promoção de saúde e sensibilização da comunidade no estado. Durante o projeto, MSF apoiou o abrigo de migrantes indígenas de Boa Vista, onde as condições sanitárias não eram adequadas. Uma equipe de água e saneamento trabalhou na elaboração de melhorias das instalações e da disponibilidade de pontos de água para consumo no local. As obras correspondentes foram assumidas pela Operação Acolhida.

2 – População excluída no Rio de Janeiro

Foto: Roberto (Bear) Guerra

Na década de 90, no Rio de Janeiro, muitas pessoas estavam sendo excluídas do acesso à saúde. MSF chegou pela primeira vez à cidade em 1993 para atuar com crianças em situação de rua. Em 1995, a organização iniciou um projeto no bairro de Vigário Geral, na Zona Norte, oferecendo atendimento de clínica geral, ginecologia, obstetrícia, pediatria, serviços de odontologia, psicologia, serviço social, consultas e procedimentos de enfermagem. Desde então, a organização ampliou as atividades na cidade.

Em 2003, MSF inaugurou o Projeto Meio Fio para responder às necessidades da população em situação de rua no Centro do Rio de Janeiro. Ainda no mesmo ano, MSF inaugurou o Centro de Atenção Integral à Saúde, na comunidade de Marcílio Dias, Complexo da Maré, também na Zona Norte, oferecendo clínica geral, ginecologia, pediatria, saúde mental e serviço social. Em 2005, o centro passou a ser gerido por uma organização local. Em 2007, uma Unidade de Emergência foi criada no Complexo do Alemão, Zona Norte, onde eram oferecidos atendimento de emergência, cuidados de saúde mental, transferência em ambulância para hospitais da região e orientações sobre a rede pública de saúde do município. As atividades foram encerradas em novembro de 2009.

3 – Resposta a desastres socioambientais

Foto: Daniel Kfouri

Em 2000, nos municípios de Resende e Barra Mansa, na Região Sul Fluminense do estado do Rio de Janeiro, fortes chuvas que fizeram os afluentes do rio Paraíba do Sul transbordarem deixaram aproximadamente duas mil famílias desabrigadas e 1.673 desalojadas. Além de fornecer apoio médico, o plano de ação de MSF em resposta ao desastre incluiu um trabalho de conscientização e articulação com atores governamentais e da sociedade civil para enfrentar situações de emergência. Já em 2002, a região atingida pelas chuvas foi o Vale do Jequitinhonha, no nordeste de Minas Gerais. Com cidades isoladas e milhares de pessoas desabrigadas, MSF enviou às localidades mais afetadas uma equipe multidisciplinar, composta por 3 enfermeiros, uma psicóloga e uma responsável logística. A intervenção emergencial de MSF no Vale durou 9 dias.

Em junho de 2010, fortes enchentes atingiram os estados de Pernambuco e Alagoas, deixando milhares de casas destruídas. As equipes de MSF entraram em ação oferecendo apoio psicológico, kits de higiene, trabalhando na melhoria das condições de água e saneamento, além de realizarem monitoramento e treinamentos na região. Apenas um ano depois, em 2011, após intensas chuvas na Região Serrana no Rio de Janeiro que causaram mais de 900 mortes, psicólogos de MSF treinaram profissionais de saúde mental que trabalharam na área atingida pelas cheias. A capacitação foi o principal foco do nosso trabalho nesta emergência.

Mais recentemente, houve o rompimento das barragens em Mariana, em 2015, e Brumadinho, em 2019, no estado de Minas Gerais. E profissionais de saúde mental de MSF atuaram no apoio a psicólogos que atenderam às vítimas dessas duas grandes catástrofes socioambientais.

4 – Escritórios Institucionais

Foto: Mariana Abdalla/MSF

Paralelamente à atuação em projetos no território brasileiro, a abertura de um escritório no Rio de Janeiro, em 2006, contribuiu para que MSF ampliasse suas ações, captando recursos e recrutando profissionais nacionais, o que veio a estreitar ainda mais os laços com o país. No ano anterior, MSF já havia começado a recrutar profissionais brasileiros para atuar em outros países.

Em 2007, as atividades no país foram fortalecidas com a criação da Unidade Médica Brasileira, conhecida como Bramu (em inglês, Brazilian Medical Unit), que presta suporte técnico e apoio estratégico aos projetos de campo e aos escritórios de MSF na América Latina.
Além disso, MSF conseguiu, a partir das ações de comunicação no Brasil, sensibilizar a população a respeito das crises humanitárias internacionais. Paralelamente, a equipe de Relações Institucionais e Assuntos Humanitários ampliou o contato entre MSF e entidades da sociedade civil e órgãos governamentais, com o objetivo de contribuir para e influenciar a formulação de políticas públicas na área da saúde. Em 2019, MSF-Brasil inaugurou um novo escritório na cidade de São Paulo, expandindo a presença institucional da organização no país.

5 – Pandemia de COVID-19

Foto: Mariana Abdalla/MSF

A parte mais intensa desses 30 anos de história está sendo vivida neste momento. A pandemia de COVID-19 chegou ao Brasil no início de 2020 e gerou uma mobilização sem precedentes de recursos e de profissionais de MSF no país. A organização conseguiu rapidamente iniciar atividades direcionadas ao atendimento das populações mais vulneráveis, como pessoas em situação de rua, migrantes e refugiados e comunidades indígenas, que têm pouco acesso ao sistema público de saúde. Essas populações, que já se encontravam em estado de grande vulnerabilidade mesmo antes da pandemia, passaram a enfrentar uma situação ainda mais grave com a pandemia da COVID-19. MSF deu suporte também a sistemas de saúde fragilizados e com dificuldade de responder à forte demanda. Desde o início da pandemia, já atuamos nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Amazonas, Roraima, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Rondônia, Pará, Ceará, Paraíba e Bahia.

Uma região onde nossa presença tem sido marcante é a Norte. Em Roraima, MSF tem trabalhado para apoiar o frágil sistema de saúde, que foi ainda mais pressionado por um grande afluxo de migrantes venezuelanos. Com atenção especial à evolução da COVID-19 no estado, em 2020, nossa equipe tratou tanto a população local quanto os migrantes. Também trabalhamos em Rondônia e estivemos no interior do Amazonas e em Manaus apoiando o sobrecarregado sistema de saúde local em meio a duas ondas devastadoras da doença, em 2020 e no início de 2021. Além disso, MSF também atuou em cidades do Ceará, da Paraíba e da Bahia, Nordeste, e no Pará, Norte, através do reforço da estrutura de saúde local, dos treinamentos para profissionais da linha de frente, da ampliação da capacidade de testagem e das ações de educação em saúde para as comunidades.  

Apesar da passagem do tempo, parte da história é familiar. MSF voltou a lidar no Brasil com uma doença potencialmente letal em uma região do país onde permanecem as dificuldades de acesso a cuidados de saúde para a população. A mesma região Norte onde, há 30 anos, tudo começou.








 

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