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(Des) Confiança

A enfermeira Mariana Rodo coordenou as atividades de enfermagem da MSF em Montepuez, nas clínicas de apoio às populações deslocadas pelo conflito em Cabo Delgado, Moçambique.
30/07/2021
Cabo Delgado, Moçambique

Foto: Arquivo pessoal

 

Montepuez é uma das regiões de Cabo Delgado onde pessoas a fugir do conflito no Norte do país chegaram em busca de segurança. Campos de deslocados internos foram-se formando nos arredores da cidade e foi aí que equipas da Médicos Sem Fronteiras começaram a trabalhar. Fazemos atendimento de saúde primária, mais especificamente consultas de criança, adulto, pré-natais e realização de pensos.

Como gestora das atividades de enfermagem do projeto, era responsável pelo trabalho nestas clínicas e pela equipa que nelas trabalha diariamente. A nossa capacidade de resposta era obviamente limitada: conseguimos tratar casos simples de uma variedade de patologias, e os casos graves ou com necessidade de maior seguimento referimos para uma estrutura de saúde. Para complementar esta parte das nossas atividades, mantemos contacto próximo com as estruturas de saúde da região que nos permitem que façamos a referência de pacientes. A maioria das nossas referências decorria sem incidentes, o paciente compreendia a necessidade do encaminhamento e aceitava-o; no entanto, nem sempre isto sucedia dessa forma.

Recordo uma situação em que recebemos na tenda uma criança com historial de convulsões, febre e em estado comatoso. Deu positivo para a malária. Administrámos a medicação correspondente, mas devido à gravidade do seu estado teria de ser transferida para o hospital, uma vez que necessitava de ficar mais tempo em observação e com medicação endovenosa. Na tenda tínhamos capacidade para prestar os primeiros auxílios, mas não para manter em observação pacientes cujo estado se poderia alterar de um momento para outro.

Ao organizar aquele encaminhamento, um colega diz-me que a família não quer ir para o hospital. Tiveram recentemente uma má experiência relacionada com a forma com que foram tratados e as dificuldades pelas quais passaram na cidade, e não queriam repeti-lo. Estivemos bastante tempo a conversar com os pais da criança, a tentar perceber os seus receios e compreender se conseguíamos resolver alguns deles. Não é uma situação fácil – na cidade não têm conhecidos para os ajudar, a família tem preocupações com a alimentação, com o local para dormir e com a comunicação com os profissionais de saúde. As normas para o internamento determinam que apenas um acompanhante pode ficar com o paciente, e, neste caso, queriam ir os dois porque apenas o pai compreendia português e poderia ajudar na comunicação caso não houvesse alguém disponível para falar o idioma deles. 

Enquanto tentamos convencer os pais de que o melhor para a criança é ser atendida no hospital, esta encontra-se estável, mas claro que não podíamos demorar muito mais tempo e o melhor era organizarem-se para irem o quanto antes. Finalmente concordaram, e seguiram com a criança a mãe e o pai e também uma amiga da família. Na chegada ao hospital não foi possível que ambos permanecessem junto da criança, o que fez com que o pai ficasse ainda mais descontente com a decisão de irem para o hospital. Não ajudou que os profissionais que os atenderam não fossem os mais compreensivos e fáceis de lidar neste tipo de situações.

No hospital mantemos as melhores relações de trabalho, mas existem situações que estão fora do nosso controlo, nomeadamente a forma como comunicam e lidam com algumas pessoas. Tentei explicar a situação particular da família, mas sem êxito, e rapidamente percebi que qualquer intervenção da nossa parte não iria resolver a situação. Dada a receção tensa e conflituosa percebi que, mesmo após explicar à família os motivos para a criança permanecer mais algum tempo internada até estar fora de perigo, os pais não iriam ficar no hospital. 

No dia seguinte tentámos encontrá-los no internamento: sem sucesso. Tinham saído do hospital antes do tempo. Junto com a equipa no terreno tentámos procurá-los, mas também não foi possivel descobrir onde estavam. Não sei se foram em busca de curandeiro; infelizmente não conseguimos saber o que aconteceu à criança nem em que condições se encontrava. Fiquei a pensar no que poderíamos ter feito de diferente.

Por muito que tentemos assegurar uma boa experiência aos nossos pacientes, muitos factores estão, como é óbvio, além do nosso alcance e o serviço recebido noutras unidades de saúde, e a confianca neste, é uma delas. Felizmente, casos como este não foram a norma durante os meus três meses em Montepuez, mas são situações frustrantes que ficam na memória e me fazem refletir sobre todas as dimensões associadas ao acesso a cuidados de saúde.

 

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