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Hospital de MSF está no centro de uma situação caótica no noroeste de Camarões

06/09/2020
MSF é uma das poucas organizações humanitárias que ainda oferece atendimento médico às pessoas
Hospital de MSF está no centro de uma situação caótica no noroeste de Camarões

Foto: Albert Masias/MSF

É uma manhã de março e o beco que leva ao hospital Saint Mary Soledad, em Bamenda, capital da região noroeste de Camarões, ainda está tranquilo. Em frente à entrada, alguns vendedores, sentados atrás de suas barracas de madeira, aguardam pacientemente a chegada de seus primeiros clientes. Sob o sol, já alto no céu, tudo parece calmo e sereno. É difícil acreditar que apenas um dia antes, disparos de armas de fogo aconteceram durante horas nesta área.

Medo e deslocamento

Por mais de três anos, a violência entre grupos armados tem sido uma realidade diária no noroeste e sudoeste de Camarões, com repercussões dramáticas para centenas de milhares de pessoas. Os atos de violência aumentaram e as incursões armadas, ataques, sequestros, torturas e violência sexual não pouparam a população civil.

De acordo com as últimas estatísticas da ONU, quase 680 mil pessoas foram deslocadas pela violência no noroeste e sudoeste¹ de Camarões e outras 59 mil fugiram para a vizinha Nigéria². Mais de dois milhões de pessoas precisam de assistência humanitária em decorrência das consequências físicas e psicológicas da crise. No entanto, muitos estão lutando para ter acesso à saúde.

“A violência contínua e as restrições de movimento significam que a maioria dos centros de saúde foi abandonada por sua equipe ou não pode mais funcionar normalmente”, disse Shahbaz Khan, coordenador do projeto de MSF para a região noroeste. “A ajuda humanitária é limitada devido à insegurança e as pessoas rapidamente se viram incapazes de encontrar atendimento médico. As comunidades deslocadas, em particular, agora têm pouco ou nenhum acesso à saúde e devem enfrentar condições alarmantes."

Mais de duas mil consultas de emergência

Em 2018, o agravamento da situação levou MSF a lançar uma resposta médica de emergência no noroeste de Camarões. MSF agora apoia várias instalações médicas e uma rede de profissionais comunitários de saúde que fornecem cuidados básicos e serviços de referência para grupos deslocados e vulneráveis.

O hospital Saint Mary Soledad é uma das instalações mantidas por MSF em Bamenda. Neste hospital de 76 leitos, nossas equipes oferecem atendimento médico gratuito a gestantes e crianças pequenas, e atendimento médico, cirúrgico e psicológico a pessoas que sofreram traumas intencionais e não intencionais, incluindo vítimas de acidentes de carro, violência sexual, violência armada, queimaduras e acidentes domésticos.

MSF também montou um serviço de ambulância 24 horas por dia, 7 dias por semana, para transportar pacientes que precisam de atendimento urgente. Na maioria das vezes são emergências pediátricas e de parto, mas também incluem outras condições médicas, como pacientes com úlceras perfuradas, malária grave, infecções respiratórias ou picadas de cobra. Cerca de 5% dos pacientes transportados por ambulância são vítimas de violência intencional.

"Em 2019, tratamos mais de duas mil pessoas na sala de emergência e realizamos 1.500 procedimentos cirúrgicos aqui", afirma Jifon Edwin Fonyuy, médico de MSF responsável pela admissão e acompanhamento dos pacientes que chegam ao pronto-socorro de Saint Mary Soledad. “Nossos motoristas de ambulância trabalham dia e noite e transportaram mais de 7.300 pacientes”.

Histórias de pacientes

Em nítido contraste com o beco silencioso, a movimentada situação dentro do pequeno hospital reflete a escala das necessidades e a falta de assistência médica disponível em toda a região. Como todos os dias, a instalação está lotada. Todos os leitos estão ocupados e o consultório ambulatorial está cheio.

Loveline está deitada em seu leito na maternidade. Ela chegou esta manhã para dar à luz sua filha. “Eu moro em um dos bairros mais perigosos de Bamenda. Nossa clínica local não está mais aberta”, diz ela. “Quando senti as contrações começarem ontem à noite, fiquei muito preocupada. Especialmente porque os movimentos são proibidos às segundas-feiras em Bamenda, então eu não sabia o que fazer.”

Levar Loveline a um centro de saúde foi vital, pois ela tem a doença das células falciformes, uma doença do sangue que aumenta o risco de morte durante o parto. "Liguei para a ambulância de MSF porque sei que eles são os únicos que podem se mover durante os bloqueios. Felizmente, o veículo chegou rapidamente. Quase uma hora depois de ligar para eles, minha filha nasceu. Sem a ambulância, nós duas poderíamos ter morrido."

Três dias antes, Paul também foi levado ao hospital Saint Mary Soledad. O jovem fazendeiro havia sido atacado por homens armados que o torturaram e dispararam várias vezes, após acusá-lo de ser um apoiador de seus inimigos. Tendo sobrevivido aos ferimentos, ele conseguiu a ajuda de um transeunte e foi levado a um hospital público. Mas o hospital não pôde fornecer os cuidados de que precisava, então eles o encaminharam para MSF.

"Paul chegou aqui com cinco balas no corpo", informou Jifon. “Uma em cada mão, duas no braço e uma na coxa. Desde sua chegada, nossos cirurgiões o operaram duas vezes. Ele agora está fora de perigo. Sua mão esquerda estava em péssimas condições, mas conseguimos salvá-la.”

Ornella, uma estudante universitária de 27 anos de idade, ficou ferida em um acidente de mototáxi em novembro passado. A equipe de MSF tentou salvar sua perna por mais de três meses, mas no final ela teve que ser amputada.

“Eu normalmente nunca uso mototáxis, mas precisava de lâmpadas para estudar e tinha medo de andar naquela noite, pois havia muitos ataques no meu bairro”, lembra ela. "No caminho, um carro bateu no meu táxi a toda velocidade. O motorista do carro me levou até a clínica mais próxima, mas não estava aberta. Fomos para o hospital regional, mas eles não tinham cirurgião ortopédico. Em vez disso, eles chamaram a ambulância de MSF para me trazer até aqui.”

Durante a estadia de Ornella, os cirurgiões de MSF realizaram várias operações para salvar sua perna. "Infelizmente, os danos causados pelo acidente foram muito graves e não havia alternativa. Tivemos que amputar", disse Jifon. “Esta é sempre uma decisão extremamente difícil de tomar devido ao enorme impacto social que terá. Como prosseguir com os estudos? Como encontrar um emprego? Como construir uma família?”

“A equipe aqui fez tudo o que podia”, disse Ornella. “Desde a amputação, todos aqui, não apenas os psicólogos, têm me apoiado muito. Vou deixar o hospital em alguns dias e espero ser capaz de reconstruir meu futuro."

Felix, de 23 anos de idade, também viverá o resto de sua vida com o impacto do trauma que sofreu recentemente. Há três semanas, Félix e sua família foram atacados no vilarejo onde estavam dormindo, já tendo sido expulsos de sua casa pelos combates. Sua família conseguiu escapar, mas ele foi pego. Seus agressores o seguraram no chão e cortaram sua mão esquerda com uma faca antes de deixá-lo inconsciente.

"Fiquei deitado no chão sangrando por duas horas antes que minha irmã ousasse voltar para me buscar. Nós nos escondemos na floresta por duas semanas. Recebi remédios tradicionais, mas meu braço infeccionou. Acabamos decidindo deixar o mato e ir para um centro de saúde. Lá, eles não podiam fazer nada por mim, eles apenas colocaram um curativo. A infecção piorou. É por isso que viemos para Bamenda. Na estrada para cá, alguém nos disse que os médicos do Saint Mary Soledad poderiam me ajudar."

Quando chegou, Félix estava muito debilitado e teve que ficar seis dias internado para que os médicos tratassem a infecção e começassem o atendimento psicológico. Hoje, é a primeira vez que ele volta ao hospital para uma consulta de acompanhamento desde que saiu na semana passada. Dado o terrível ataque que sofreu, o sorriso desarmante de Félix durante o check-up médico dá arrepios. "Felix é impressionante", avaliou Jifon durante a visita de acompanhamento. "Sua ferida está sarando bem e não há mais nenhum vestígio de infecção."

A imparcialidade essencial de MSF

Em cada sala, a história de cada paciente destaca o contexto crítico e a necessidade urgente de aumentar o acesso aos cuidados de saúde na região.

“Para muitos deles, vítimas diretas ou indiretas da crise atual, a presença de MSF aqui é vital”, avaliou Shahbaz Khan. “Nesta região, como em muitas outras ao redor do mundo, somos uma das poucas organizações humanitárias no local que prestam cuidados de saúde aos que vivem aqui. Em uma área marcada por ataques regulares à equipe humanitária, esse apoio é difícil de fornecer, mas as pessoas sabem que tratamos nossos pacientes com imparcialidade. Responder às necessidades urgentes de saúde é a nossa única preocupação. Vírus, tiros e infecções não se importam em que lado da crise você está. Nem nós.”

Algumas semanas depois, a pandemia de COVID-19 atingiu o noroeste de Camarões, acrescentando outra emergência de saúde ao já terrível estágio do país. Enquanto MSF imediatamente começou a apoiar a resposta à COVID-19, outras atividades que salvam vidas no hospital Saint Mary Soledad não pararam, já que os apelos por um cessar-fogo continuam em grande parte ignorados. A violência e os deslocamentos continuam, em uma situação cada vez mais desesperadora para as pessoas que estão pagando um alto preço em uma das crises humanitárias mais negligenciadas do mundo.

* Os nomes dos pacientes foram alterados para proteger a sua privacidade.

 

¹ https://data2.unhcr.org/en/country/cmr

² https://data2.unhcr.org/en/country/nga


 

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