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Ataque em Cabul: “Eles vieram para matar as mães”

14/05/2020
Números oficiais indicam que 24 pessoas foram mortas e pelo menos 20 ficaram feridas no ataque contra a maternidade Dasht-e-Barchi, apoiada por MSF
Ataque em Cabul: “Eles vieram para matar as mães”

Foto: Frederic Bonnot/MSF

Nos dias seguintes ao ataque no hospital Dasht-e-Barchi, em Cabul, Afeganistão, ficou claro que o que aconteceu no dia 12 de maio foi um ataque deliberado contra uma maternidade, com o objetivo de matar mães a sangue frio.

“Eu voltei ao local no dia seguinte ao ataque e o que vi na maternidade demonstra que foi um assassinato sistemático contra as mães”, diz Frederic Bonnot, coordenador-geral dos programas de Médicos Sem Fronteiras (MSF) no Afeganistão. “Eles passaram pelos quartos da maternidade atirando nas mulheres em seus leitos. Foi metódico. Paredes furadas por balas, sangue no chão dos quartos, veículos incendiados e janelas estilhaçadas pelos tiros.” 

Números oficiais indicam que 24 pessoas foram mortas e pelo menos 20 outras ficaram feridas, a grande maioria paciente. MSF, que apoia a maternidade há seis anos, confirma que 26 mães estavam hospitalizadas no momento do ataque. Enquanto 10 delas conseguiram se esconder em salas de segurança junto a vários profissionais de saúde, nenhuma das 16 mães que continuaram expostas ao ataque foi poupada: 11 morreram; três delas na sala de parto, com seus filhos recém-nascidos, e cinco outras ficaram feridas. Entre os mortos há dois meninos pequenos e uma obstetriz afegã de MSF. Dois recém-nascidos foram feridos – um deles foi transferido para outro hospital para ser submetido a uma cirurgia de emergência depois de ser atingido por um tiro na perna, assim como três profissionais locais de MSF.

Os agressores, cujo número total ainda é desconhecido, invadiram o hospital pelo portão principal pouco depois das 10h da manhã. Havia outros prédios e enfermarias mais próximos à entrada, mas, de acordo com a equipe de MSF presente no momento do ataque, os agressores foram direto para a maternidade apoiada por MSF. Foram quatro horas de inferno – o ataque durou todo esse tempo, enquanto pacientes e profissionais procuravam abrigo. “Durante o ataque, da sala de segurança, ouvíamos tiroteios e explosões por todo o lado”, diz Frederic Bonnot. “É chocante. Sabemos que esse local foi alvo de ataques no passado, mas ninguém poderia imaginar que eles atacariam uma maternidade. Eles vieram para matar as mães.”

Ao todo, 102 colegas da equipe nacional de MSF trabalhavam junto a um grupo de profissionais internacionais. Em meio ao caos do ataque, contabilizar os pacientes e os profissionais que estavam presentes no hospital se tornou extremamente difícil, uma vez que as pessoas estavam correndo para se proteger e muitas outras foram encaminhadas às pressas para outros hospitais. “Este país infelizmente está acostumado a ver eventos horríveis”, diz Bonnot. “Mas não há palavras para descrever o que aconteceu na terça-feira.”


MSF começou a trabalhar no Afeganistão em 1980, mas esteve ausente do país entre 2004 e 2009, após o assassinato de cinco profissionais na província de Badghis. Em 2019, MSF manteve sete projetos em seis províncias do país e realizou mais de 100 mil consultas ambulatoriais, assistiu mais de 60 mil partos e realizou quase 10 mil intervenções cirúrgicas. MSF não aceita financiamento de nenhum governo para realizar seu trabalho no Afeganistão e conta inteiramente com doações privadas.

 

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